"Voluntariando" no Nepal

04-06-2019

2017 foi o ano de realizar uma das experiências mais fascinantes que há tanto esperava: Realizar voluntariado internacional. Foi um sonho de infância tornado realidade, foi um desprender de tudo, deixando tudo para trás e um agarrar gigante a uma nova forma de viver! 

Foi um sonho de infância tornado realidade, foi um desprender de tudo, deixando tudo para trás e um agarrar gigante a uma nova forma de viver! 

Durante três meses viajei pela Ásia. Conheci o esplendor da Malásia, os paraísos da Tailândia, a simplicidade do Vietname, e o caos, no destino mais improvável e esquecido de todos, o Nepal. Foi no Nepal, neste pequeno recanto do mundo, que realizei uma jornada fascinante de voluntariado com crianças órfãs.

O Nepal é um país de contrastes esmagadores onde impera a luta pela sobrevivência, mas mesmo assim, um país com um povo tão simples e tão único, um povo de coração aberto capaz de uma amabilidade extraordinária. E o que dizer então das crianças? Aqueles pequenos seres com quem me cruzei nos orfanatos... Aquelas pequenas pessoas que tive o, gigante, prazer de conhecer? Pois... Bem, é aqui que as palavras faltam e é a pensar nestas crianças que o coração se enche de um sentimento tão grande e tão puro que não consigo explicar.

O Nepal é um cantinho do mundo esquecido onde, só na capital Kathmandu, segundo a ONU, há mais de 9.000 crianças de rua, órfãs e abandonadas à sua sorte que vivem em condições de extrema pobreza. Conhecido este triste fato, estava traçado aquele que seria o objetivo desta jornada de voluntariado no Nepal: crianças órfãs. Os orfanatos no Nepal oferecem aquilo que é o essencial do essencial (e sem duvida fundamental): um teto!

As crianças são retiradas da rua, às vezes, após anos a viver sozinhas. Tem então um lar, um espaço ao qual podem chamar "casa", onde vivem com conforto e em segurança, longe do caos das ruas, sem carência de alimentação. Nestas casas as crianças são felizes e o grande objetivo das casas de acolhimento é que as crianças tenham acesso à educação sendo-lhes providenciada a matrícula escolar. Infelizmente, sendo este um gasto muito elevado, nem todas as crianças acolhidas tem essa possibilidade. A minha convivência com aquelas crianças rapidamente me mostrou que existiam várias carências: amor, afeto, regras, hábitos de higiene e alimentação adequados e acesso apropriado à aprendizagem e cultura. É aqui que o voluntariado ganha força. É aqui que o trabalho desenvolvido se reveste de extrema importância para estas crianças.


Nos orfanatos de Kathmandu o dia começa bem cedo, com um pequeno-almoço, que para mim tem tanto de estranho como de reforçado, constituído por arroz e sopa de lentilhas (o famoso dal bhat) e legumes muito picantes (que é como quem diz dolorosamente picantes). Após as crianças, literalmente, devorarem o pequeno-almoço, é hora de lavar os dentes, mãos e cara, vestir o uniforme escolar e pentear rigorosamente os cabelos, até que cada fio de cabelo fique exatamente no local que lhe está destinado. E, todos os dias, todos os dias, sem exceção, estes rituais de beleza são cumpridos em rigor. É então hora de ir para a escola e vamos literalmente a correr de mãos dadas pelas ruas fora, enquanto os olhares das pessoas locais nos seguem curiosos. "Boas aulas. Até logo". As crianças ficam na escola e eu regresso a casa onde é hora de tomar o meu pequeno-almoço (mais ao estilo ocidental, sem arroz ou condimentos picantes) e passar o dia entre voltas pelas ruas de Kathmandu e visitas aos pontos icónicos da capital.

Quando as crianças regressam da escola é hora de lanchar e logo de seguida fazer os trabalhos de casa e rever a lição aprendida. As crianças adoram receber ajuda nestas tarefas, sendo que eu cuidadosamente ajudava nos trabalhos de inglês e matemática. Realizado o dever de estudo, as crianças ficam livres para atividades lúdicas que partilham de forma amorosa como verdadeiros irmãos de sangue. Entre badminton, andar de bicicleta, jogar às cartas, jogar à bola, ver televisão, fazer desenhos ou ler histórias há espaço e tempo para me pedirem (ou roubarem) muito mimo e colo, arrancando de mim um sorriso sem fim e um suspiro de amor.

No momento de tomar banho, após as infindáveis correrias dadas, é visível a necessidade de implementação de regras e de criação de hábitos de higiene diários que permaneçam no dia-a-dia das crianças. Chamando a atenção para a importância do banho, lembrando a sua necessidade e pedindo diariamente para concretizarem essa atividade, espero ter conseguido concretizar esse objetivo.

A hora de jantar é marcada em ponto, sem atrasos de qualquer espécie. O jantar é servido as 19 horas e, sem surpresas, o prato provido é o inconfundível dal bhat com legumes. A oferta de carne é rara, habitualmente acontece 1 a 2x por semana, o que para mim não se mostrou problemático, mas, a verdade é que os hábitos alimentares precários, típicos da maioria da população, são o reflexo da pobreza e não uma escolha alimentar.

Quero acreditar que o pouco do meu trabalho foi muito, quero acreditar que cada gesto de amor fez a diferença. Sei que não dei só o melhor de mim, dei-me a mim de uma forma completa e inteira e sei que recebi ainda mais do que aquilo que dei. Regressei a casa uma pessoa diferente, mais simples e ao mesmo tempo mais completa, mais feliz, mais consciente e mais humana e sobretudo com o coração preenchido de amor e serenidade e com a certeza de que "é preciso tão pouco para ser feliz".

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